A DANÇA DO VENTRE E O
EFEITO "O CLONE"
Autora: Málika
E-mail: malika@malika.com.br
Tenho ouvido inúmeros comentários sobre a novela O Clone
(que está fazendo muito sucesso), sobre a dança do ventre e sobre a dança
na novela - muitas vezes sobre a "dança da novela" !!!!!!!!!!!!!!. Tenho
ouvido esses comentários não apenas em sala de aula, das alunas e de outras
professoras e profissionais da área, mas também na padaria, no posto de
gasolina, na farmácia, no cabeleireiro, nas reuniões , festas e por aí afora.
Com certeza, o clone tem levado às casas muitas informações sobre a música
e a dança árabes, entre elas a dança do Oriente, ou dança do ventre. Isso
é fantástico !!!!!!!!! ( não estou falando do programa ). A grande maioria
do povo brasileiro vivia no total desconhecimento da música e danças árabes.
As poucas informações que chegaram, ultimamente, dirigidas à grande população,
foram totalmente deturpadas: loiras ( vejam bem, eu não tenho nada contra
as loiras ) em trajes diminutos ( não tenho nada contra trajes assim ) "rebolando"
( também não tenho nada contra rebolar )... Só que daí até a dança do ventre
existe uma longa distância.... Só que o povo não sabia disso... E agora
sabe !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!. Isso é mesmo fantástico!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!.
Vou contar um "causo" verídico, que aconteceu por volta de 1990 e que -
tenho certeza - não teria ocorrido atualmente. Eu ministrava aulas numa
academia e recebi um telefonema de uma moça que se dizia bailarina. Ela
iria fazer uma apresentação e precisava de duas alunas "para fazer pano
de fundo para a dança dos 7 véus" - foi exatamente isso que ela disse. Eu
achei essa estória muito estranha. Perguntei sobre a pessoa que estava organizando
a tal apresentação, e a "bailarina" me passou o nome da empresária e o telefone.
Fui conversar diretamente com essa empresária: mulher simpatisíssima , muito
educada e elegante. O evento era uma comemoração em sua empresa. Chamei
uma amiga minha, profissional super talentosa. No dia e horário combinados
eu e minha amiga encontramos a "bailarina". Fomos muito bem recebidas pela
empresária que havia, inclusive, adaptado um enorme e confortável camarim
para nós. Eu estava com um pequeno gravador para ouvirmos as músicas que
iríamos dançar, musicas estas que haviam sido escolhidas pela "bailarina".
SURPRESA:!!!!!as
músicas não tinham nada a ver com dança do ventre........... eram músicas
árabes sim, mas eram músicas do "folclore" marroquino..... Como era praticamente
impossível dançar dança do ventre com aquele tape, o meu marido foi em casa
"voando" buscar outras músicas. Percebemos que a "bailarina" já estava um
pouco "sem graça". Trancou-se no toalete do camarim com uma auxiliar para
colocar os seus trajes que ela havia trazido numa grande caixa, que estava
fechada até então - bem ao contrário dos nossos, abertos e espalhados ordenadamente
pelo enorme camarim. Eu e a minha amiga nos aprontamos e ficamos ouvindo
as músicas, selecionamos uma para entrarmos com véus, uma segunda para tocarmos
snujs e um solo de derbak para finalizarmos, se não me falha a memória.
SURPRESA:!!!!!! abre-se a porta do toalete, dali sai a auxiliar seguida
da "bailarina" que usava um suquini de lamê azul turquesa ( disso eu nunca
mais vou me esquecer ) com uma meia dúzia de medalhinhas penduradas no "soutien"
e outra meia dúzia de medalhinhas penduradas no suquini, complementado por
sete tufinhos de tule azul turquesa também, é claro, presos em losango,
formando uma mini saia totalmente transparente, que ela pretendia ir tirando
um a um, como se fosse um strip tease ( não tenho nada contra striptease
) para terminar a dança dos 7 véus com um suquini de lamê azul turquesa...
Até hoje eu ainda não sei quem teve a maior surpresa, ela ou nós duas. Quando
ela saiu, com ar quase triunfante ( lembrem-se que ela já estava um pouco
sem graça por causa das músicas ) detrás da auxiliar, encontrou eu e a minha
queridíssima amiga - desculpem a falta de modéstia - muito bonitas, com
trajes caprichados, escolhidos com cuidado e carinho. Ficamos nos olhando,
apatetadas........e estaríamos assim até hoje não fosse uma funcionária
da empresa nos avisar que era hora do show! A "bailarina" já bastante sem
graça, quis inverter a ordem da nossa entrada e fez questão de ficar por
último, dizendo que havia mudado de idéia e que não iria mais fazer a dança
dos 7 véus. Até hoje eu me pergunto se ela sabe o quê realmente é essa dança.........
Entramos em cena . O lugar era grande. Eu e a minha amiga, acostumadas a
dançarmos juntas, cruzávamos o salão sem embaraço, trocando de lugar e muitas
vezes alternando os toques dos snujs. A "bailarina" parecia grudada ao chão,
tinha uma dificuldade enorme em deslocar-se, fazia movimentos bruscos, brutos
e grosseiros, tentando fazer algo que nem de longe se assemelhava à dança
do ventre. Acho que se ela sambasse não teria ficado tão ruim...........
Terminamos a apresentação, voltamos ao camarim. A empresária foi até lá,
passou reto pela "bailarina" abraçou -nos, beijou-nos ainda suadas mesmo,
agradeceu efusivamente, elogiou o nosso trabalho e convidou-nos para continuarmos
na festa. Virou-se para a "bailarina", encarou-a detidamente, sem dizer
uma única palavra, mediu-a dos pés à cabeça e retirou-se do camarim... Essa
empresária foi enganada pela moça que se dizia bailarina e percebeu isso
ao ver, lado a lado, uma "imitação" grotesca da dança do ventre e a dança
do ventre, que ela , até então, desconhecia. Com certeza, hoje , depois
da novela, esse fato teria pouquíssimas chances de acontecer: as pessoas
já possuem uma outra concepção da dança do ventre e já conseguem diferenciá-la
do samba, do axé , de outros ritmos e suas respectivas danças. Perceberam
que a dança do ventre tem uma música própria, árabe. Perceberam que a dança
do ventre não usa fio dental. Perceberam que a dança do ventre é do ventre
e não da bunda. E viva o " efeito clone"!!!!!!!!!!!!! Voltando aquela apresentação,
a "bailarina", assim que a empresária saiu do camarim, - SURPRESA! - confessou:
era chacrete no programa do... ( gente, não tenho absolutamente nada contra
as chacretes )