O Desenvolvimento e o crescimento da dança do Oriente ( dança do ventre ) no Brasil
Autora: Málika
E-mail: malika@malika.com.br

Obs: este é um resumo do artigo publicado na Antologia nº 3 "Mulher na dimensão do infinito", em 2000, da AJEB - Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, complementado, nos comentários finais em virtude da grande repercussão da novela "O Clone", em 2002.

Há alguns poucos anos - e estamos falando da década de 80 e início de 90 - a Dança do Oriente, ou Dança do Ventre, era muito pouco conhecida e difundida no Brasil, fora dos múltiplos centros das colônias árabes.... Aos olhos e ouvidos do povo brasileiro, não apenas as inúmeras danças árabes, étnicas e "do ventre" , mas também a música raramente chegavam.... Para uma estudante, uma pesquisadora, uma professora ou profissional conseguir o material básico e essencial para seus estudos, pesquisas, aulas ou apresentações era uma verdadeira odisséia. Comprar discos de vinil ou CDs e fitas originais de músicas árabes no Brasil, naquela época, era tarefa árdua e impossível....

Para confeccionarmos nossas roupas, éramos obrigadas a recorrer e socorrer-nos de bordadeiras especializadas em roupas de alta costura, ou até mesmo de fantasias... ,e, ainda das avós, mães e tias. Os modelos eram "tirados" da imaginação e de poucas fitas de vídeo contendo montagens de apresentações, shows e até pequenos trechos de filmes onde apareciam as famosas bailarinas egípcias.

Quanto à literatura, distinta não era a situação. O Brasil não havia produzido nenhuma obra sobre o assunto e escassas eram as publicações em inglês e francês. Vale lembrar que estamos falando da "era" anterior à Internet.... As bengalas eram improvisadas com bastões de bambú. Candelabros nem pensar. Espadas, então...Voltando dos Estados Unidos, em 1992 trouxe uma espada na minha bagagem. Fui barrada na alfândega, o fiscal alegava que era uma arma e eu que era um "instrumento de trabalho". Para evitar que a minha espada fosse confiscada, não hesitei: coloquei-a na cabeça e saí dançando para espanto geral.

Obedecendo à lei da oferta e da procura, o mercado de trabalho para as poucas profissionais, no que se refere ao ensino, era escasso.... Naquela mesma viagem, fui surpreendida pelo enorme "boom" da dança do ventre nos Estados Unidos. Salas de aula fervilhavam lotadas, com professoras e professores americanos e muitos árabes que lá residiam e ensinavam sua belíssima arte a um público interessado e aplicadíssimo. Lá encontrei à disposição das americanas e visitantes um vasto material especializado: publicações bimestrais, revistas, vídeos didáticos e de performance etc que eram também comercializados num verdadeiro mercado oriental que acontecia durante festivais onde se apresentavam as melhores dançarinas vindas de todos os cantos daquele País, além de desfiles de roupas folclóricas e para belly dance.


Fotos do Festival Americano e Mercado Persa alunas com véus

As performances nunca deixavam a desejar...A grande maioria das bailarinas esbanjava experiência, com idades superiores a 45/50 anos. Uma das apresentações que mais me impressionou foi uma dançarina que se equilibrava somente sobre três taças de champagne ( daquelas antigas ) fazendo inúmeros shimies. Bem, é claro que essa "arábia americana" também chegou até nós, posteriormente, modificando radicalmente a posição que a dança do ventre ocupava em nosso País.

Em meados da década de 90, já possuíamos, à nossa disposição todo o material necessário para a dança do ventre em quantidade e qualidade, até excelentes designers, costureiras e costureiros especializados em criar os mais refinados e luxuosos trajes.... Jornais e revistas especializados em dança já abriam espaço para a dança do Oriente circulando, algumas vezes, com encartes especialmente dedicados a ela, ao passo que já ensaiávamos algumas publicações exclusivas. A divulgação na mídia começou a aumentar: programas de TV e rádio e internet. Passaram a acontecer, seguindo os passos americanos, eventos totalmente voltados para a dança do ventre, com apresentações de grupos profissionais e amadores, concursos, desfiles e comércio.

Diante desse novo panorama, o mercado alterou-se. O interesse e a procura pela dança do ventre aumentaram substancialmente e a oferta de cursos também. No final da década de 90 estimava-se por volta de 5000 mulheres praticantes, fato que passou a justificar a vinda de professores, professoras, bailarinas, coreógrafos e músicos americanos, egípcios, turcos e libaneses.

Mais recentemente, constatamos o "efeito Clone": a novela popularizou a dança do ventre. Ela teve o enorme e incontestável mérito de mostrar com propriedade à toda a população brasileira essa arte milenar, que até então era totalmente desconhecida da grande massa. Abordou os aspectos culturais e familiares, inserindo a dança no contexto que lhe é próprio, com dignidade e alegria. Munida de tais conhecimentos e esclarecimentos, a população passou a apreciar muito não só a dança, mas também as músicas, e, - fenômeno que eu considero dos mais relevantes e importantes para todas e todos que trabalham, de algum modo com a dança do Oriente - possibilitou à população diferenciar um bom trabalho de uma tentativa precária de imitação dessa maravilhosa arte que sempre nos apaixonou e a distinguir uma profissional de pessoas que, infelizmente, julgam-se aptas a ministrar aulas sem capacidade técnica para tanto.

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