Dança do Ventre: a sensualidade que
temos e tememos
Autora: Dora Lorch - Psicóloga
E-mail: dora-lorch@ieg.com.br
Todos os povos acham que sua cultura é o centro do universo
e em contrapartida as civilizações diferentes assumem contornos exóticos,
e leia-se exóticos como excitantemente diferentes.
Assim os americanos - do norte- acham nossa cultura exótica: querem provar
as comidas, treinam as danças, provam as roupas. O exótico nos permite experimentar
nuances nossos que desconhecíamos, e quem sabe descobrir algo maravilhoso
que estava escondido, mesmo que isso sejam emoções que não ousamos mexer
no dia-a-dia.
Este por exemplo é o fascínio das férias: um outro lugar onde parece que
podemos viver qualquer coisa porque não interfere diretamente em nosso cotidiano.
O filme Uma Americana em Veneza mostra isso com maestria: uma americana
que se permite um romance em terras exóticas com um italiano. Será que ela
permitiria tal proximidade em seu próprio pais? Será que permitiria um romance
que pudesse ter raízes? Se arriscaria na sua vidinha comum?
Parece que só deixamos nossos desejos e impulsos surgirem por pouco tempo,
e longe do contexto de nossas vidas. Esta magia é a magia da dança do ventre:
mostrar uma volúpia que normalmente não deixamos aflorar, por medo de suas
conseqüências, por medo de nossos próprios desejos, por medo do julgamento
da sociedade...mas que dentro deste contexto muito delimitado, pode surgir
sem nos assustar.
A dança do ventre é uma dança sedutora, sinuosa como as relações humanas,
onde a intenção é parte velada, parte explicitada, daí a sua sensualidade.
Uma dança que vai desnudando aos poucos a dançarina e suas intenções, o
espectador e suas fantasias. Além disso os movimentos de quadris, o olhar
entre véus, o movimento delicado das mãos e dedos, produz sensações de prazer
que remonta aos primórdios de todas as espécies: a procura pelo parceiro,
onde cada qual procura mostrar o seu melhor para impressionar os que a estão
observando, mas tudo isso com muita poesia, beleza e discrição. Soma-se
a isso nossa noção de exótico: a dança do ventre vem recheada de estórias
luxuosas e enebriantes como as 1001 noites, de haréns com mulheres lindas
e sensuais, sultões apaixonados e disponíveis; vem repleto de romances tórridos
e conquistas acaloradas, de amor, de paixão; vem impregnado de vitória da
escolhida em detrimento das demais e cada dança nos faz sentir sermos nós
a preferida.
Expressar estes sentimentos é profundamente marcante pois nos faz entrar
em contato com nossos próprios desejos e fantasias de seduzir e ser seduzida,
de possuir e ser possuída, de controlar e de se deixar levar, sentimentos
opostos mas presentes nos desejos humanos. Nos faz sentir, pelo menos durante
a música que somos únicas.
Por que você não experimenta estas emoções?
DORA MACHADO LORCH - é pós- Graduada e formada pela PUC - S.P. em
psicologia clínica . Possui trabalhos apresentados em Congressos Nacionais
e internacionais, sendo o último aceito pelo congresso internacional de
Psicologia da Saúde realizado em final de junho/99 em Caracas sobre os temas
: Birra infantil, e Insalubridade Psíquica. Nos últimos anos tem realizado
pesquisas : Treinando profissionais que lidam com crianças. Sobre o " Stress",
"Obesidade: qual o papel da educação" e questões relativas ao
afastamento do trabalho e suas conseqüências.